Ir. José Augusto Alves

Ai de mim se não evangelizar!

 Ir. José Augusto Alves

Com mais de 50 anos de vida religiosa, o Ir. José Augusto Alves tem muita história pra contar! De uma família numerosa, religiosa e feliz, do interior de Minas Gerais, Patos de Minas, o Irmão descobriu logo cedo a sua vocação religiosa – com apenas 11 anos, entrou para o Juvenato Marista. De lá pra cá, foram anos de estudos e formações; tempos de crescimento e fortalecimento; momentos de deserto e, também, de fraternidade; uma história Marista, bonita de se ver.

Neste meio século de vida religiosa, muitos deles foram dedicados à edu­cação em escolas maristas e em funções de gestão escolar. Recentemente, em 1º de fevereiro, o Ir. José Augusto Alves aceitou um novo desafio: ser o diretor do Colégio Marista Diocesano, em Uberaba (MG) – o qual recebeu, com entusiasmo e alegria, a missão de cuidar, com zelo e amor, da unidade educacional uberabense. Na trajetória profissional, sete escolas e colé­gios estiveram sob a direção do Irmão, e o compromisso com a educação de qualidade e alicerçada em valores continuará em Uberaba.

Na entrevista a seguir, Ir. José Augusto Alves nos traz um pouco da sua trajetória, desde o início da vocação religiosa, os tempos de formação inicial, a época dos variados estudos no Brasil, e, também, no exterior, a caminhada pelo Instituto Marista, e os desafios e oportunidades que teve pela vida pessoal e consagrada. É uma memória viva do Instituto!

 

 

 

1) Ir. José Augusto, o senhor entrou no Juvenato com apenas 11 anos, em 1959, na cidade de Patos de Minas (MG). Como o senhor sentiu a vocação tão cedo para se tornar um Irmão Marista?

Deus me concedeu a grande graça de vir ao mundo no meio de uma família numerosa, religiosa e feliz. O Ir. Luiz Silveira referiu-se a meus pais, numa carta circular, como uma das famílias mais lindas de Patos de Minas (MG). Minha mãe era muito religiosa. Meu bisavô materno deu ao meu avô, meu padrinho de batismo, o nome de José Maria de Jesus. Legou-nos a religiosidade como valor que impregnou toda a família. Meu pai, que faleceu aos 94 anos, era homem sem estudos, mas cheio de sabedoria e inteligência, formou-nos na retidão, na vivência dos valores do respeito, da responsabilidade, da cidadania, da compaixão e da solidariedade.

Minha vocação religiosa surgiu quando o saudoso Ir. Anselmo Pio Madariaga fez um convite a um tio meu para ir para o Juvenato de Ribeirão Preto (SP). Fiquei sabendo e pedi para ir também. Meu pai resistiu no início, por ser eu o filho primogênito, mas as coisas se arranjaram e entrei para o Juvenato que ficava em minha própria cidade, Patos de Minas, em 22 de abril de 1959, quando ainda frequentava o 3º primário. O mistério de amor do Pai não se explica. Neste ano os Irmãos Zeferino Falqueto e Maurício foram os guias dos primeiros passos de minha vocação.

2) Como foram os tempos de formação inicial (Juvenato, Postulado, Noviciado, Escolasticado)? O senhor “sentiu”, nesses tempos, que estava no caminho certo?

Nas casas de formação cresci num ambiente sadio, de muita amizade e camaradagem. Tinha facilidade nos estudos, era desportista, encarregado da biblioteca, supervisor do dormitório, chefe de equipe na JEC (Juventude Estudantil Católica), animada pelo Ir. Raimundo Barbosa; editava o jornalzinho do Juvenato, em Mendes (RJ), sob os olhares atentos do Ir. Claudino Falchetto, nosso regente. Fazia parte do grupo dos “Anjos da Guarda”, grupo de acolhida e acompanhamento aos novatos, organizado pelo querido Ir. Ângelo Camata, diretor. Vivi momentos felizes no teatro, no coral, nos esportes, nas caminhadas pelas matas, nos passeios, nas orações comunitárias; momentos de muita intimidade com Deus, na capela, sentindo muito forte a presença do Senhor em minha vida e deixando as lágrimas rolarem do coração para os olhos, na emoção de se sentir amado e escolhido pelo Senhor. Na sétima série, pedi ao Ir. Gobriano, provincial, para fazer os votos privados de Pobreza, Castidade e Obediência. Num santinho, que conservo até hoje, ele escreveu minhas “obrigações”.

Meu Noviciado foi marcado por inúmeras graças e conduzido pelas mãos sábias e santas dos Irmãos Zeferino Falqueto, Ismael Antônio e Braz Eliseu. Encharquei-me das lições de amor do Sagrado Coração de Jesus, nas revelações à Josefa Menendez, por meio do livro “Un appel à l’amour”, que lia e meditava todos os dias. Sentia-me amado e cada vez mais convidado a consagrar-me ao Senhor para a educação cristã das crianças e jovens, como aprendíamos da vida do Fundador e dos primeiros Irmãos que estudávamos e resumíamos, em francês.

Questionava-me: serei capaz de perseverar? Terei forças? Uma voz me dizia: se os outros conseguiram, por que você não conseguiria perseverar? A confiança total em meus superiores, a transparência e a sinceridade muito me ajudaram a esclarecer dúvidas, superar obstáculos e fortalecer minha decisão. Os novos ventos trazidos pelo Concílio Vaticano II, durante os anos do Noviciado, prolongaram-se no tempo do Escolasticado, tornando nossos corações juvenis cheios de zelo e vitalidade apostólica.

Sob a batuta sábia e santa dos Irmãos Luiz Silveira, Aleixo Maria Autran, Floriano Tescarolo, Sulpício José, Irineu Martins e Gilberto Rocha, nossa formação acadêmica, pedagógica, filosófica, catequética e teológica tornou-se um símbolo dos novos tempos. O Escolasticado de então, que eu frequentava juntamente com os jovens Irmãos do Brasil Norte, era denominado por alguns de Sorbonne. O Ir. Luiz Silveira reconheceu que formou as novas gerações para o novo momento da Igreja conciliar, mas não para a realidade concreta de nossa Província. Muitas comunidades não estavam preparadas para acolher as novas gerações. O “clima interno” não favorecia o desabrochar dos jovens Irmãos, formados sob novos valores e com novas perspectivas. Surgiram as crises, as saídas. De um grupo de cerca de 50 Irmãos no Escolasticado, somos poucos os remanescentes. Uma perda inestimável de jovens Irmãos cheios de valores humanos, inteligentes, preparados e com incrível zelo apostólico. Novos tempos que mudaram a face de muitas Congregações.

3) Durante os tempos de formação descritos acima, o senhor teve tempo e oportunidades para estudar, correto? Nos conte um pouco sobre estes estudos: em Pedagogia; o curso de Teologia, na Bélgica; o curso de Planejamento Pastoral, em Bogotá, dentre outros. O que estes estudos representaram para a vida do senhor?

Em 1970, iniciei meus estudos universitários. Um tempo de amadurecimento, de convivência tranquila com as colegas da Pedagogia. Era o único homem da turma. O mesmo aconteceu nos cursos de pós-graduação. Poucos Irmãos de minha geração tiveram as oportunidades de estudos que tive, não só no Brasil, como no exterior. Cito alguns que muito me ajudaram na caminhada profissional e apostólica. O curso de Teologia, na Bélgica, na Universidade Católica de Lovaina, proporcionou-me inúmeras oportunidades de alargar os horizontes culturais e aprofundar a fé, compondo a equipe central da pastoral universitária, participando de grupos de oração, tendo contato direto com inúmeras figuras eminentes do mundo eclesial, sobretudo latino-americano. Surgia com força a Teologia da Libertação. Pude beber de perto, da fonte, através de inúmeros contatos com Joseph Comblin, inesquecível professor, Gustavo Gutierrez, Dom Proaño, Clodovis Boff, Dom Helder e tantos outros que incendiavam nosso coração com a utopia da libertação.

Após um ano de preparação em Bruxelas (Bélgica), realizamos memorável peregrinação à Terra Santa, conhecendo cada recanto bíblico e lendo in loco as passagens mais significativas da história do povo de Deus. Pude testemunhar o diálogo de Dom Helder com o Cardeal Suenens, em Bruxelas, com direito a foto com D. Helder na saída do Teatro, com os colegas do Colégio para a América Latina, onde vivia com bolsa de estudos. Os Irmãos da comunidade de Mont-Saint Guibert me questionavam: veio aqui perder a fé? Respondia que, pelo contrário, vinha fortalecê-la. E era verdade. As aulas de Jean Giblet, Houssiau, e tantos outros eram verdadeiros momentos de contemplação e espiritualidade, fazendo arder nosso coração.

Outro momento importante, em minha formação, foi o curso de Planejamento Pastoral, pela Universidade Javeriana, em Bogotá, Colômbia, sob a orientação do jesuíta Pe. Jesús Vela. Forneceu-me instrumentos para um apostolado mais eficaz. Ajudou-me a solidificar meu “projeto de vida”, onde vi com clareza que tinha a mesma aspiração que Paulo: “ai de mim se não evangelizar!” Participei do Remar (Recanto Marista), animado pelo saudoso Ir. Nestor Quiceno. Ao retornar ao Brasil, como coordenador da Pastoral Provincial, tive pouco tempo para repassar essa magnífica experiência pastoral aos meus coirmãos, pois, logo assumi a função de diretor de ensino da UBEE – União Brasileira de Educação e Ensino, com a saída do titular. Mas a riqueza e a fertilidade do curso estão dando bons frutos ainda hoje.

Os seis meses de formação passados no Centro de Espiritualidade El Escorial, na Espanha, deixaram marcas indeléveis em meu coração. No deserto do meio dia, no calor do ativismo e desgaste do estresse, após vivenciar greves e desafios pessoais, pude encontrar um coração compreensivo e sábio na pessoa do Ir. José Luís Ampúdia que soube me acolher, orientar e libertar meu coração, dando-me um novo sopro em minha entrega pessoal de consagração ao Senhor. Momentos de graça na vivência comunitária, no saborear dos passos de Marcelino Champagnat em l’Hermitage, Puy, Fourvière, La Valla. Retornei revigorado pessoal e vocacionalmente, com visão mais positiva de mim mesmo, de minhas possibilidades e dons que o Senhor me concedeu para o bem maior de seu Reino.

4) Como foi a caminhada do senhor no Instituto Marista?

Sempre estive à disposição, onde precisassem de mim. Minha pobreza e minha riqueza encontram-se em minha disponibilidade. Minha vida é doação. Por isso nunca recusei uma missão. Sempre à disposição para evangelizar pela educação, seja qual for a modalidade: professor; formador; coordenador de Pastoral local e Provincial; diretor de ensino da UBEE; conselheiro provincial junto a quatro provinciais; membro da equipe gestora da UBEC (União Brasileira de Educação e Cultura) – mantenedora da Universidade Católica de Brasília (UCB); membro da EMIR – Equipe Interprovincial de Reflexão; ecônomo provincial; diretor de Juvenato.

Em meus anos a serviço à Província uma experiência deixou marcas: o Ceformar – Programa de Formação do Laicato. Durante nove sessões, na coordenação, juntamente com Heloísa Afonso de Sousa, pude sentir o coração ardente de inúmeros leigos e leigas, até de outros países, pulsando ao ritmo do sonho de São Marcelino, além de saborear o carisma marista, vivencialmente, junto aos leigos. Sentia-me um semeador de esperança, de sonhos. Isso me reacendia o apelo vocacional do Senhor de ser dEle, a Seu serviço.

5) Nesses mais de 50 anos de vida religiosa, quais os desafios e as oportunidades que o senhor encontrou pelo caminho?

Há momentos de cansaço na caminhada, de perda de sabor, de secura espiritual, crises interiores, solidão, estresse. Felizmente o Senhor sempre colocou em meu caminho pessoas fraternas e compreensivas que muito me ajudaram a atravessar estes desertos. Nos momentos difíceis das greves escolares, dos reordenamentos internos, no colocar a casa em ordem, no eterno recomeçar, havia sempre uma força a me guiar, a fortalecer a decisão de seguir em frente, na alegria da entrega e do sentir-se amado, acolhido, perdoado, na eterna misericórdia do Pai. Nunca passou pela minha mente deixar a Congregação, apesar das ocasiões, convites e crises. Sempre me senti realizado entre meus irmãos de comunidade, por mais difícil que tenha sido a convivência em alguns momentos.

Uma comunidade em especial muito me ajudou: São Vicente de Minas, pelo nível de vivência comunitária, orante, fraterna e apostólica, assim como a convivência com a população, as crianças e os jovens mais pobres. Tenho ainda bem vivo o sabor de ouvir o grupo Lata Viva tocando na I Assembleia Internacional da Missão, encantando a todos, assim como a alegria de anunciar o Prêmio de Escola Referência Nacional em Gestão, conferido à nossa escola, graças à dedicação de seus educadores e à ação do Senhor em cada coração. Ao viver meu 50º ano de Consagração Religiosa, a experiência se repete, em Fortaleza (CE), em convivência com os jovens postulantes, com as crianças e jovens pobres na escola Marista Sagrado Coração, onde senti de perto a ternura de Jesus se manifestando aos pequeninos e aos mais pobres, no desafio de acender novamente o sonho de um futuro melhor em cada coração que o Senhor coloca em meu caminho.

Aos 70 anos estou revivendo, em Uberaba (MG), a aventura de Abraão de deixar a terra, o povo, a segurança e iniciar novos desafios. Somos peregrinos, semeadores de paz, construtores de sonhos e, sobretudo, herdeiros do grande ideal de Marcelino Champagnat em seu desafio de formar bons cristãos e virtuosos cidadãos.

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9 Comments
  1. Walmir Xavier

    Meu Caro Ir. José Augusto.
    Tudo bem?
    Adorei ler sua entrevista, acalentou-me o coração.
    Verdadeiramente você é “dono” de uma bonita história.
    Não tenho dúvidas de que o “ser gente” é sua grande marca.
    Também o admiro por manter sempre aberto ao diálogo, mesmo nos momentos de conflitos e tensões.
    Grande abraço e muito sucesso em Uberaba.
    Seu irmão.
    Walmir Xavier.

  2. Vilma

    Que maravilha conhecer ainda mais a sua belíssima História de vida. Amei. Estou em sintonia com você em sua nova missão. Que Deus o abençoe sempre, sempre. Grande abraço, meu querido Irmão José Augusto.

  3. Mario Gáspare Giordano

    Prezado José Augusto. Pude conhecê-lo no Colégio São José do Rio há uns 30 anos. Pelo breve relato depreende -se que você é pessoa predestinada e abençoada por S Marcelino Champagnat e Maria SS. Que Deus continue abençoando sua bela e exemplar caminhada. Mario Gáspare Giordano

  4. Telmar

    Uma história lindíssima, realmente!
    Somente uma pessoa dotada de tanta riqueza interior, de firmeza, coragem, discernimento , consegue construir uma trajetória consistente , coerente e humana. E, assim, é o Ir. José Augusto!
    Fazer parte desta caminhada é um presente. Peço a Deus que te dê tudo o que você precisa para uma vida muito feliz!
    Abraço grande.
    Telmar.

  5. Ir. José Augusto Alves

    As manifestações de vocês enchem meu coração de alegria, porque pudemos partilhar um pouquinho desta trajetória em que, a graça de Deus, insiste em revelar todo seu carinho e sua misericórdia através da pessoa de vocês. Obrigado Walmir, Vilma, Mario e Telmar.

  6. Celia Maria Oliveira

    História linda! Trajetória de dedicação, determinação, perseverança e fé! Amor ao próximo, fidelidade a Deus! Que Ele lhe conceda, por onde caminhar , manter essa chama de luz e amor por muitos e muitos anos, com saúde e paz!!! Amém!!!
    Abraços de Célia, Pedro, Rainier, Raysa e Rayane.

  7. Ir. José Augusto Alves

    Obrigado, Célia. Você participou ativamente de momentos lindos dessa caminhada, assim como toda sua família, no inesquecível Colégio Marista de Patos. Que Deus continue iluminando e abençoando seus passos nas trilhas da vida!!! Grande abraço a você e toda sua querida família.

  8. José Mauro de Carvalho

    Uma trajetória humana das mais belas!
    Irmão José Augusto, sou grato e privilegiado por ter participado um pouco de sua vida, como Juvenista em Colatina-ES. Seus ensinamentos, conversas e o apoio de dado em um dos momentos mais dificeis de minha vida ajudaram a formação de meu caráter e personalidade. Um muito obrigado por sua Vocação e doação. Um Grande Abraço!

  9. Ir. José Augusto Alves

    Mauro. Nosso tempo de convivência no Juvenato de Colatina foi um momento privilegiado de graças, de superação, de convivência fraterna, de apostolicidade. Guardo boas lembranças de nossas vivências comunitárias. Peço ao Senhor que o ilumine e o encha com suas bênçãos. Estou morando em Uberaba, na comunidade marista dos anciãos… Sou o caçula por aqui. Se puder, apareça para uma visita. No apostolado, sou diretor do Colégio Marista Diocesano.Grande abraço!!! Ir. José Augusto Alves.

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