“Ame simplesmente, porque nada, nem ninguém pode acabar com
um amor sem explicação” (Irmã Dulce).

Era final da década de 70, início dos anos 80. Vivíamos um momento de grandes transformações em nosso Colégio Marista Nossa Senhora da Vitória, conhecido como o Marista do Canela. Articulava-se ali um novo projeto, que depois foi compreendido como “Encontros de Formação”. Era uma iniciativa capitaneada pelo Ir. Daniel Aguiar e o Serviço de Orientação Religiosa. Envolvia as turmas do Fundamental II e do Ensino Médio. Havia mais possibilidades de atuação em outras obras assistenciais de Salvador, mas a Obra de Irmã Dulce – por se tratar de uma iniciativa para as pessoas de rua, sem nenhuma condição, geralmente sujas, feridas e sem alimentação – foi a escolhida pelo colégio.

Nessa época eu, Maria Goretti, era professora de ensino religioso dessas turmas e abracei o projeto, juntamente com todos da direção e corpo docente. O nosso capelão, naquela ocasião, era o Monsenhor Ademar Dantas, o qual nos orientava nos processos de formação e alimentava a nossa espiritualidade.

Entre as atividades desenvolvidas pela nossa Pastoral estavam, pois, os Encontros de Formação, realizados quinzenalmente. Aconteciam no espaço do Hospital de Irmã Dulce. Os educandos participantes passavam a manhã ou a tarde lá. Quando chegávamos ao hospital, éramos recebidos pela própria Irmã Dulce. Normalmente ela estava sentadinha em uma cadeira e dizia, com seu olhar vibrante de alegria: “Estava esperando vocês”.

As vivências desses dias eram muito fortes, pois lá podíamos ver a realidade de dor que agredia as pessoas, mas também a fortaleza da fé que movia ao cuidado do ser humano ferido. Tudo ali nos fazia rezar, a começar pela acolhida feita pela Irmã Dulce, que rezava conosco o Santo Anjo do Senhor. Ela tinha o maior prazer de levar os educandos e educadores para conhecerem cada um de seus pacientes, de seus assistidos.

Os educandos levavam alimentos, itens de limpeza, roupas, materiais de construção para as reformas e obras em curso no hospital, e, sobretudo, muita alegria no coração. Ela recebia todas as doações e as encaminhava, pessoalmente, para as devidas finalidades. Sua atitude testemunhava um envolvimento por inteiro com a causa dos pobres, o que deixava nossos educandos perplexos.
Essas atividades viraram rotina, em nosso Colégio, de 1979 até 1985. Um símbolo “marcante” daquela época era a Kombi branca que, frequentemente, era vista estacionada à porta do Colégio, para buscar as doações de nossos educandos que, a cada ano, aumentavam e com certeza ajudavam muito a
Obra de Irmã Dulce.

O Marista do Canela sempre acolheu Irmã Dulce com alegria. Algumas vezes o “Anjo bom da Bahia” se fez presente entre nós e com sua voz meiga e doce nos falava do amor solidário, daquele que sai do mais íntimo do coração e por isso atinge diretamente outros corações. Ela tinha muita gratidão aos Irmãos Maristas, e algumas vezes foi ao nosso colégio apenas para agradecer ao Ir. Achylles Scapin, então diretor da unidade, aos demais Irmãos e a todos os educadores da época, a ajuda que era dada para os “seus pobres”.

Foi, pois, num contexto marcado por mudanças muito diversas – tanto no Canela quanto na sociedade soteropolitana – que eu, pela proximidade com aspectos sociais da nossa cidade, conheci a Irmã Dulce. Desde então pude vivenciar momentos muito significativos com ela, que contribuíram para o meu crescimento humano e espiritual.

Conhecer pessoas como a Irmã Dulce é, de fato, um privilégio, pois elas exalam a ternura de Deus e, de maneira simples, nos dizem que vale a pena doar a vida, pelo resto da vida, para que a humanidade possa ser cada vez mais próxima do Deus vivo e verdadeiro. Os pequenos, os simples e os empobrecidos eram sua razão de existir e de mover-se. Todos os dias Irmã Dulce saía em direção aos outros para pedir. Isso mesmo, pedir! Não para si mesma, mas para os seus empobrecidos, que tanto necessitavam de alívio físico e espiritual.

Pude conversar com Irmã Dulce algumas vezes e dela ouvir palavras que guardo até hoje no meu coração. Certa vez, por exemplo, me disse assim: “Minha filha, cuide desses jovens, para que nunca permitam que o coração endureça e os olhos não enxerguem mais o Deus que habita em cada um dos seres humanos”. Foi com ela que aprendi a saber esperar o tempo certo para cada coisa. Irmã Dulce tinha uma fé imensa e, mesmo com uma saúde muito fragilizada, não desistia de nada que julgasse necessário para o bem-estar dos pobres.

Sua aparência era a de um ser pequeno e sem forças, mas suas atitudes eram de um gigante. Irmã Dulce, tal qual o sol, acordava todos os dias disposta a irradiar alegria e amor, a fim de tocar e transformar vidas. Suas mãos, que muito nos abençoaram, eram delicadas, enrugadas, marcadas pela passagem do tempo, mas sempre abertas para acolher tudo e todos.

Muitos educadores Maristas e Irmãos puderam, naquela época, testemunhar a experiência de santidade que ela revelava todos os dias. A compaixão pelos pobres e sofredores movia nossa pequena-grande Irmã a comprometer-se com sua causa. O sim dela aos pobres era consequência do seu sim a Deus.

Irmã Dulce não morreu! Ela continua viva em cada espaço que criou para promover os empobrecidos. Sobretudo, revive nos gestos daqueles que continuam sua obra de amor. Sua presença é atualizada, em todo tempo, no olhar agradecido de muitos baianos que tiveram suas dores curadas e suas fomes saciadas pelo
seu “anjo bom”.

Nós, Maristas, tivemos o privilégio de experimentar sua presença física em nosso meio. Desde então, quantos educandos nossos contribuíram e continuam contribuindo para as Obras de Caridade da Irmã Dulce. Quantos educadores foram sensibilizados pelo seu exemplo e pela sua vocação!

Hoje estamos com o nosso coração em festa, pois, pela sua canonização, a Irmã Dulce não é mais somente “O Anjo bom da Bahia”. Ela agora é o “Anjo” que abre suas asas sobre todo o povo de Deus. Ela é ícone da Igreja em saída, que ultrapassa seus próprios muros e atinge muitos corações. Santa Dulce dos pobres é a mulher-Igreja que, cingida com o avental, sai mundo afora a fim de levar o evangelho vivo por meio de seu testemunho de serviço aos mais pobres.

Maria Goretti Vieira Machado

A Cerimônia pela Canonização de Irmã Dulce acontecerá no próximo domingo (13/10), às 5h da manhã, na Praça São Pedro -Vaticano.

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