Ir. José Wagner da Cruz, vice-presidente da UBEE-UNBEC. (Foto: Ascom/PMBCN)

 

Há mais de 15 anos, o Ir. José Wagner Rodrigues da Cruz estuda as juventudes. Natural de Resende, no Rio de Janeiro, o Irmão nasceu em uma família na qual as pessoas seguem diversos credos e religiões, mas com muito respeito a essa diversidade religiosa. Ele, o mais novo de quatro filhos, relata no livro “Simplesmente Irmãos!” que aprendeu com os pais, desde criança, a olhar pelo bem-comum.

Na fase da adolescência e juventude, o Irmão se aprofundou em temas bíblicos, de cidadania e de formação integral, na linha da Pastoral da Juventude (PJ). Com quase 22 anos, ingressou no Instituto Marista e, atualmente, ele celebra seus 20 anos de vida religiosa na Congregação.

Atual vice-presidente da União Brasileira de Educação e Ensino (UBEE) e União Norte Brasileira de Educação e Cultura (UNBEC), mantenedoras da Província Marista Brasil Centro-Norte (PMBCN), ele segue com sua vocação de atuar em prol das crianças, adolescentes e jovens. Confira, na entrevista abaixo, elementos importantes sobre a presença e valorização dos jovens na instituição, na visão do Irmão:

Irmão, a história do Instituto Marista apresenta o fundador Marcelino Champagnat como homem que dedicava atenção especial aos jovens. Na atualidade, qual o significado do jovem para a instituição? Por que ter grupos de Pastoral Juvenil Marista (PJM) é tão importante para a PMBCN, espaço este que a instituição não abre mão e incluiu esse tema como um das três prioridades do triênio?

A pedra-de-toque da fundação do Instituto Marista foi por causa de um jovem: o jovem Montagne. Quando Champagnat viu este jovem abandonado, na perspectiva da formação acadêmica e eclesial, nas verdades da fé, termo usado naquele tempo, Champagnat falou: não posso permitir que nenhum jovem tenha vivido a sua vida sem ter conhecido a Deus e sem ter sido alfabetizado. Nós nascemos neste contexto. E é muito bom a gente vir, após um Capítulo Geral, a juventude voltando ao tema – porque ela é o ponto de partida e o ponto de chegada da nossa missão, com os adolescentes e as crianças – e é muito bom a gente perceber que o jovens que vivem a missão marista também têm o que dizer, contribuir e protagonizar.

Quando você me pergunta sobre como o jovem contemporâneo pode contribuir nesta missão, eu respondo, com base nos meus estudos de mais de 15 anos, que percebo esse jovem como alguém que sabe o que quer, mas que precisa ser escutado, compreendido, acolhido. É um jovem que recebe um conjunto enorme de informações, por meios tecnológicos e ou acadêmicos, e precisa saber o que fazer com essas informações todas. Os jovens “moram”, “vivem”, na internet, e precisam das instituições para contribuir neste momento. A missão social da escola na formação do caráter da juventude é importante, mas a escola precisa dialogar com esse jovem e se corresponder com ele; amar e entender o fenômeno juvenil. A família, a escola e a igreja devem dialogar mais com os jovens e com as instituições, de um modo geral, para construir de maneira pedagógica o caminho que eles precisam seguir para fazerem as suas histórias. A juventude clama pela nossa presença entre eles.

Em que contexto foi criada a Comissão Nacional de Evangelização de Adolescentes e Jovens do Brasil Marista? Que sociedade tínhamos à época e o que os maristas pensavam como horizonte para as juventudes? Os documentos registram o seu nome como um dos integrantes deste grupo, além de outros irmãos da Província. Por que vocês sentiram a necessidade de criar as diretrizes?

Na virada do milênio – entre os anos de 1998 e 2001 – iniciamos uma reflexão sobre as diversas juventudes dentro das nossas realidades. Tínhamos vários grupos que pensavam o itinerário da fé de cada coletivo juvenil. Refletimos e dialogamos e percebemos que precisávamos otimizar este cenário e trabalhar a identidade do que era ser um jovem marista. No SIMAR (Serviço Interprovincial Marista), ainda em São Paulo, antes da Umbrasil (União Marista do Brasil), nós tínhamos várias coordenações, e uma delas era a de evangelização, coordenada pelo Irmão João do Prado, – recém-eleito conselheiro-geral do Instituto Marista, durante o XXII Capítulo Geral – que, à época, convocou um conjunto de especialistas em juventude contemporânea. Durante quatro meses, conseguimos levantar os principais temas, depois demoramos mais um ano e meio para sistematizar tudo que precisávamos para respondermos outras questões. A metodologia de trabalho foi rica, de escuta oportuna. Nós contamos com os Irmãos – Iranilson Correia de Lima, Natalino de Souza – que somaram muito em todas as perspectivas de cada escrita dos capítulos.

E, ao final, fomos para Florianópolis, em Santa Catarina, onde reunimos 85 jovens e irmãos para validar o que tínhamos produzido em um ano e meio. Foi um momento rico, por que os jovens diziam: “eu concordo com isso, eu discordo daquilo, acrescenta, retira…”. Eu posso dizer que essas diretrizes foram escritas por centenas de mãos. Fomos apenas os facilitadores do início de um processo, pela experiência, no meu caso, de 20 anos de evangelização juvenil – pois antes de ser Irmão eu já coordenava a Pastoral da Juventude da diocese, em minha cidade. Creio que hoje nós temos outros desafios. Organizamos o processo da juventude no itinerário da fé, mas existem outras perguntas e provocações.

Quando eu visito uma escola e vejo um conjunto de jovens que não estão no processo de evangelização, eu fico me perguntando: o que a gente poderia oferecer? A evangelização daqueles que estudam conosco é responsabilidade de quem? Só do setor de pastoral? Não. É de todos. Nós vivemos agora um novo momento, oportuno para pensar naqueles que têm o mesmo credo que nós e nos diversos credos que estão na nossa composição, e naqueles que não estão no campo de nenhuma confessionalidade, mas que estão nos nossos colégios. Que tipo de diálogo podemos promover para eles terem acesso à informação? Eu me pergunto e acho que neste serviço a gente precisa ainda mais ouvir os coletivos juvenis que estão nas salas de aula, participando conosco da vida marista nas unidades.

O 2º Congresso Nacional da PJM, realizado em outubro, em Porto Alegre (RS), envolveu mais de 400 jovens das Províncias do Brasil Marista. Como o senhor descreve a identidade do jovem marista no novo século? Quem é esse jovem? O que eles buscam? Como o Marista pode ajudá-los a tornarem-se bons cristãos e cidadãos, sendo eles os protagonistas de suas vidas?

Escutamos uma jovem, em uma atividade de formação no Escritório Central, sobre o que ela espera da instituição – ela apontou os erros e o que temos que consertar. Ela dizia: “Não deixe um congresso acontecer numa lacuna de sete anos, porque muitas gerações podem se perder neste processo”. Então, a primeira coisa é não perder o planejamento, porque ele é fundamental para o processo de amadurecimento da fé destes jovens. Depois, eu creio que a gente precisa colocar o jovem na composição dos planejamentos. Nós estamos revisando o plano estratégico na instituição e, em todas as unidades, sugerimos que os jovens e os pais sejam convidados para este processo.

Precisamos promover mais formações com as juventudes. O processo educativo na fé exige que eles tenham mais espaços para poder dialogar sobre cultura, saber, religião, tecnologia. Perdemos boas oportunidades de tê-los presentes conosco em vários espaços estratégicos. E quando são convidados, eles ocupam bem o espaço e oferecem conteúdos relevantes. O mundo tecnológico exige de nós, também, uma criatividade que vai além das cadeiras e carteiras educacionais nas escolas. Por exemplo: quantos grupos virtuais poderíamos criar para discutir temas diversos da nossa proposta pedagógica? E que os jovens tivessem a oportunidade de propor uma pauta estratégica para as escolas de que eles fazem parte? É muito oportuno que a gente pare para pensar se os espaços que eles ocupam são de fato estratégicos.

O segundo Congresso Nacional da PJM propôs diálogo, tolerância, respeito, amor, diversidade, atenção, escuta…todos os temas que dialogamos, institucionalmente, também foram sugeridos pelos jovens. Nós temos uma riqueza multicultural no nosso País e precisamos viver essa diversidade da brasilidade da nossa juventude. Precisamos continuar garantindo direitos humanos, respeito, diálogo, porque uma escola que não faz esse exercício, não é uma escola. Uma escola marista não nasce só para ensinar conteúdos; nasce para formar um cidadão e cristão, por meio dos diálogos educacionais. Uma escola que não respeita os sujeitos que dela participam e compõem, não pode ser uma escola marista de qualidade, uma escola que ama a missão marista. Nascemos para tornar Jesus Cristo conhecido e amado, e se o jovem não conhece Jesus, dificilmente ele conseguirá dar o seu testemunho de amor. Espero que cada Marista, após o XXII Capítulo Geral e o Congresso da PJM, pare para refletir sobre as estratégicas que surgiram nos dois eventos, e à luz do que eles pediram, colaborarmos na construção de uma sociedade nova e mais marista, na qual cada cidadão é respeitado no seu direito.

Por que incentivar nos jovens o protagonismo? O que isso significa e simboliza na vida do jovem, pensando no presente e no futuro?

Na minha história de vida, eu tive várias experiências educacionais. Eu tive uma tia que sempre dizia: saber não ocupa espaço, e educar é ensinar o cidadão a pensar por si só. Eu creio que esta é a perspectiva. Precisamos dar acesso ao jovem para ele aprender a conviver, aprender a aprender, aprender a ser e estar neste mundo em que vivemos hoje, mas com esta condição: uma vez que eu recebo educação, eu consigo pensar por mim mesmo qual o melhor caminho a trilhar na minha vida. Organizar o pensar não é simples, tanto que Champagnat dizia: “É mais fácil governar um País do que educar uma criança”. Esse pensamento exige de nós protagonismo, e protagonismo não quer dizer obediência. Protagonismo significa gerar espaço para os jovens serem os sujeitos das suas histórias.

O jovem vai questionar, concordar, discordar, propor e trazer novos cenários. Ele vai trazer a contribuição dele, pois é isso que a gente espera com o protagonismo juvenil. Não é um jovem obediente, mas um jovem que possa pensar, por si só, em alternativas para um mundo novo, um mundo possível, para uma sociedade nova. Neste momento, o nosso País está dividido politicamente, e ainda não descobrimos a linha do meio termo, a conexão. Eu posso pensar diferente de você, não tem problema. Mas tem coisas que eu penso em comum. Então, eu acho que mais do que nunca, nós precisamos descobrir uma linha para construir uma plataforma no meio disso tudo, para que todos possam se interconectar de novo, tecer as relações, se reaproximar de novo. Desta maneira, vamos conseguir o protagonismo, e o juvenil, neste momento, é determinante para reaproximar a nossa sociedade em questões como respeito, paz, diálogo, fraternidade, solidariedade e sensibilidade para com o próximo.

Não existe tempo melhor de repensar o protagonismo juvenil do que esse que o nosso País está vivendo. Existe uma sociedade que precisa ser reconstruída e reconectada, e eles poderão fazer isso de maneira mais simples e estratégica, até mais do que nós. Com a leveza, criatividade, arte e a poesia eles podem fazer uma sociedade muito melhor do que gente imagina. Eu não tenho dúvidas de que eles podem muito mais do que a gente.

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