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PRODUÇÃO DE TEXTOS: Chirliana Souza, Oniodi Gregolin | FOTOS: Cristiano Giamarco e banco de imagens das unidades da PMBCN.| Projeto Gráfico: André Carvalho

ra outubro de 1816 quando o jovem padre Marcelino Champagnat, aos 28 anos, coadjutor da paróquia de La Valla, França, começou a concretizar a fundação do Instituto Marista. Três jovens estavam no centro dos acontecimentos que circundavam o sacerdote: Jean-Marie Granjon, Jean-Baptiste Montagne e Jean-Baptiste Audras. Os três foram protagonistas de fatos que fortaleceram a determinação de Champagnat: de que era preciso Irmãos para ocuparem-se de evangelizar e educar, crianças e jovens, nos mais longínquos povoados da França do século XIX.

Jean-Marie Granjon era um jovem piedoso e bem-disposto. Champagnat o observava desde que chegou em La Valla, vendo nele grande potencial para iniciar a obra Marista. Granjon era analfabeto e o fundador o convidou para morar próximo a paróquia, onde lhe daria instruções iniciais de escrita e de leitura. Ele também se desenvolveu em piedade e tornou-se modelo de virtude em todo o povoado. Granjon se tornou, mais tarde, o primeiro Irmão Marista, ao abraçar e ajudar a concretizar o projeto.

O segundo fato relaciona-se a Jean-Baptiste Montagne, um jovem de 16 anos que vivia em um povoado nas redondezas de La Valla. Champagnat é chamado para confessá-lo, pois se encontrava gravemente doente. O jovem padre se espanta ao ver que o menino desconhecia a religião, “não sabendo nem mesmo se Deus existia”, escreveu Ir. Jean-Baptiste Furet, biógrafo do fundador. Antes de confessá-lo, Champagnat o instruiu e depois ouviu a confissão. Montagne morreu pouco depois, enquanto o fundador visitava outra família nas proximidades. Esse fato reforça o desejo de Champagnat de uma congregação de Irmãos para dedicarem-se às crianças e aos jovens.

Poucos dias depois desses eventos, um outro adolescente, de 14 anos, Jean-Baptiste Audras, procura o Pe. Champagnat na paróquia para se confessar e falar do desejo de seguir a vida religiosa consagrada. Marcelino vê nele outra oportunidade de edificar o projeto de formar Irmãos. Propôs a ele que viesse morar com Granjon e ofereceu-se para dar-lhe lições e introduzi-lo na vida religiosa. Pouco tempo depois, falou a ele sobre o projeto do Instituto, sobre o qual o jovem Audras respondeu: “Desde o momento em que tive a sorte de estar sob sua direção, eu apenas pedi a Deus a obediência e a graça de renunciar à minha vontade própria; pode fazer de mim tudo o que quiser, contanto que me torne religioso”.

Audras e Granjon se tornaram os dois primeiros Irmãos Maristas e a entrada deles no noviciado, no dia 2 de janeiro de 1817, é considerada a data de fundação do Instituto Marista. São Marcelino Champagnat não apenas sonhou a obra, mas acreditou no protagonismo que estes jovens poderiam exercer na história da Igreja, na educação da França e de diversos países. Aos dois primeiros, seguiram-se outros, principalmente da região do Rio Loire, nas proximidades de La Valla-en-Gier.

O contexto francês no qual viveu o Pe. Champagnat o impeliu a promover mudanças significativas entre crianças e jovens marcados pela pobreza e ignorância. A fundação do Instituto Marista e a opção pelas crianças e jovens foi a concretização das inquietações do fundador e a materialização da necessidade de transmitir o “amor infinito que Deus sente por eles”. Para transformar o mundo e a realidade dos jovens, Champagnat recorreu a eles próprios para serem atores principais dessa mudança.

Semeadores da Boa-Nova entre os Jovens

O clamor atual dos jovens e das crianças é tão urgente quanto nos tempos de São Marcelino Champagnat. O fundador Marista viveu entre crianças e jovens e os amou profundamente, a ponto de dedicar todas as forças para esta missão. Os Irmãos que o seguiram e deram continuidade ao projeto, imitaram o exemplo e tornaram-se presença significativa por onde passavam. Assim como século XIX, os maristas são confrontados com constantes desafios. “A dura realidade em que vivem tantas crianças e jovens nos convoca pessoalmente e como grupo a crescer espiritualmente e a dar uma resposta mais audaciosa e decidida, fiel ao Evangelho e ao nosso carisma”, expressa o documento Missão Educativa Marista (2000, p. 33).

Ir. Gobriano Maria (1910-1985) escreveu que “o mais belo apostolado com que [Champagnat] acenou aos Irmãos foi este de serem anjos da guarda dos meninos (…). A virtude que nos norteará neste apostolado será a humildade” (1973, p. 150)[1]. A opção preferencial pelas crianças e jovens, desde Champagnat, está no cerne do Instituto Marista. Diversas cartas escritas por ele aos Irmãos reforçam a preferência e alvo da missão do Instituto. Em 1831, escreveu ao Ir. Barthélemy animando-o para o trabalho com as crianças. “Você tem em mãos o sangue precioso de Jesus Cristo. Toda a vida deles será o eco daquilo que você lhes tiver ensinado. Esforce-se, não poupe nada para formar à virtude seus corações juvenis”, exortou. No testamento espiritual, escrito em 1840, Champagnat não deixou de lembrar os Irmãos o destino para o qual estavam designados. “Vocês têm a missão de Anjos da Guarda junto às crianças que lhes são confiadas; também a esses puros espíritos prestem um culto especial de amor, respeito e confiança”, escreveu.

Documento “Evangelizadores entre os jovens”, publicado em 2011

Por ocasião da canonização de São Marcelino Champagnat, em 1999, o papa São João Paulo II exortou a Igreja “ter plena esperança nos jovens, a amá-los com um amor total que favoreça uma verdadeira formação humana, moral e espiritual”. Ajudar a despertar o papel protagonista dos jovens, formando-os para o compromisso com a construção de sociedade marcada pelo acolhimento da diversidade e pela realização da paz é o que move, Irmãos e leigos, em diferentes realidades e contextos, nas fronteiras ou nos centros, a serem apóstolos e presença testemunhal entre os escolhidos de Champagnat.

A experiência bicentenária do Instituto Marista, aos poucos foi sistematizada, para além das práticas diversas encontradas em 82 países. Em 2011, o documento Evangelizadores entre os jovens convocou todos os Irmãos e leigos maristas a situarem os jovens no coração da prática pastoral. “Assumindo as características maristas que nos são próprias, tratamos de acompanhar os jovens (…), os acolhemos com afeto, sem fazer distinção de religião ou etnia, mas prestando uma especial atenção aos mais marginalizados. (…) Buscamos ser apóstolos para os jovens, evangelizando-os através de nossa vida e presença entre eles. O amor pelos jovens (…) é sinal de identidade da nossa missão”[2].

O Brasil como terra fértil da missão marista entre os jovens 

A chegada dos Irmãos Maristas ao Brasil, em 1897, propiciou o nascimento do maior território de missão do Instituto. No ano seguinte, cinco outros Irmãos se uniram aos seis primeiros. Em 1900 e 1903, outros grupos chegaram ao Rio Grande do Sul e ao Pará. Em 10 anos, três províncias estavam estabelecidas no Brasil, abrangendo grande parte do território com diversas obras. Até 1908, 42 escolas, 1 editora e 4 casas de formação já tinham sido fundadas nos estados do Rio Grande do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Pará, Alagoas, Bahia e Pernambuco.

Com estilo próprio, marcado pelo amor e pelo zelo, os primeiros Irmãos do Brasil começaram a fazer-se presente em meio às juventudes nas escolas que floresceram em diversas partes do país. Em 1909, no antigo Colégio Diocesano São José, no Rio de Janeiro, é fundada a Associação dos Antigos/ Alunos, em funcionamento até hoje e com sede no Colégio Marista São José da Tijuca, naquela mesma cidade. A intenção inicial dos superiores maristas era manter as portas do colégio abertas a todos os ex-alunos. Escreveu na época, o diretor do Colégio, Ir. João Alexandre, que os antigos estudantes não se esquecessem daquela casa e nem dos mestres que lá tiveram. “Vinde, pois, todos confiadamente; sereis sempre recebidos de braços abertos. Nossa vida inteira pertence aos nossos alunos de ontem, de hoje e de amanhã”, escreveu.

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Da catequese e da educação que primeiro chegavam aos estudantes, os Irmãos foram, aos poucos, espalhando novas maneiras de vinculação dos jovens com a Igreja, com a fé e com a sociedade. Nas décadas seguintes, a partir de 1920, as associações religiosas como as Congregações Marianas, os Congressos Eucarísticos, o Apostolado da Oração e as Cruzadas Eucarísticas recrutaram diversos estudantes e ocorreram, também, dentro dos colégios. A persistência dos Irmãos na educação na fé, arregimentava cada dia mais estudantes. Nas Congregações Marianas, diversos ex-alunos estavam à frente das diretorias locais, em diversas cidades com presença marista.

Nos anos 1940, o escotismo católico ganhou terreno entre as práticas extracurriculares dos estudantes. Nos colégios do Nordeste, principalmente, existiu grande entusiasmo. Foi na mesma década que surgiu, no Brasil, a Ação Católica, movimento da Igreja que propunha estabelecer e organizar os leigos em meio a sociedade como apostolado organizado. A partir da Ação Católica Geral, nos anos de 1950, nasceram outros grupos especializados, como a Juventude Estudantil Católica/JEC e a Juventude Universitária Católica/JUC. Aos poucos, o aprendizado militante católico, estabelecido nas décadas anteriores, foi se desenvolvendo para um plano de militância política e social. Muitos jovens maristas também estavam inseridos nestes contextos, ao mesmo tempo em que a Igreja também se preparava para o Concílio Vaticano II, que revolucionou o papel do leigo na missão de evangelizar.

Os anos de 1960 marcaram uma nova forma de ser jovem diante do mundo que se modernizava, principalmente pelos anseios de liberdade. Nesta década, as juventudes começaram a ocupar ruas em manifestações de enfrentamento à ditadura militar e em defesa de direitos. No Brasil, a JEC e a JUC foram os ramos laicais católicos que se destacaram com propostas de mudanças e de engajamento social. O embrião da Ação Católica Especializada tomou outra forma e contribuiu para que novos movimentos nascessem na década de 1980.

Os jovens maristas em direção ao novo século

No final da década de 1970, a terceira Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano marcou a história da Igreja no continente, em Puebla, México. O documento final colocava os jovens como opção preferencial da Igreja no continente e sugeria a necessidade de “ajudar os religiosos e religiosas educadores, especialmente os jovens, a redescobrirem e aprofundarem o sentido pastoral de seu trabalho na escola, de acordo com o seu carisma próprio, prestando-lhes apoio em tarefa tão difícil”. Os bispos assumiram que os jovens são “a riqueza e a esperança da Igreja na América Latina, e sua evangelização é, por conseguinte, prioritária”.

Segundo Hilário Dick, padre jesuíta e pesquisador das juventudes, “os jovens são opção preferencial, prioridade e outros substantivos em muitas congregações. Também para a Igreja do Brasil e da América Latina, desde 1978”, explica. Para ele, que foi um dos fundadores do IPJ (Instituto de Pastoral da Juventude de Porto Alegre), desde a Conferência de Puebla, “muitas iniciativas aconteceram por causa dessa postura, nas práticas e nas teorias. De modo especial, começou-se a estudar mais a juventude”, conta.

O apelo da Igreja não passou despercebido entre os Maristas. Na década de 1980, seis províncias compunham o Brasil Marista (Porto Alegre, Santa Maria, Santa Catarina, São Paulo, Rio de Janeiro e Brasil Norte). De maneiras distintas, cada uma delas começou a responder ao chamado de ir ao encontro das juventudes. As províncias de Porto Alegre, de Santa Catarina e do Brasil Norte, por exemplo, abraçaram o movimento EDA-REMAR (Embarcação da Amizade – Renovação Marista), nascido na Colômbia e que trabalhava a dimensão da fé com os jovens. Na Província do Brasil Norte, iniciou-se em 1985, no Colégio Marista de Natal. As províncias de São Paulo e do Rio de Janeiro iniciaram, conjuntamente, o Projeto Maria de Nazaré. A do Rio de Janeiro participou da fundação do Instituto de Pastoral de Juventude de Belo Horizonte (MG), e, em 1992 fundou o GAMAR (Grupo de Alunos Maristas) e o Centro Marista de Pastoral, em Belo Horizonte (MG).

A partir dessas diversas experiências, o Brasil Marista começou a caminhar em direção do que hoje se concretiza na PJM (Pastoral Juvenil Marista). Segundo o Ir. José Wagner da Cruz, vice-presidente das mantenedoras UBEE-UNBEC, a caminhada foi conjunta e a construção do processo de evangelização elaborado por centenas de pessoas envolvidas nos mais diversos movimentos e experiências. “Na virada do milênio, iniciamos uma reflexão sobre as diversas juventudes dentro da nossa realidade. Tinham vários grupos que pensavam o itinerário da fé de cada coletivo juvenil. Refletimos e dialogamos que precisávamos otimizar este cenário e trabalhar para uma identidade mais própria do que era ser um jovem marista”, conta o Irmão. Em 2005, foi lançada a publicação Diretrizes Nacionais da Pastoral Juvenil Marista, que sistematizou a trajetória dos Maristas com as juventudes e lançou as bases para o itinerário de fé da PJM.

[1] Maria, Gobriano. Resumo biográfico do Bem-aventurado Marcelino Champagnat. Mentes, RJ: 1973.

[2] Instituto dos Irmãos Maristas. Evangelizadores entre os jovens: documento de referência para o Instituto Marista. São Paulo: FTD, 2011. Nº 115 e Nº

 

Grupo do EDA-REMAR de Salvador (BA)

Encontro GAMAR, em 2006 – Belo Horizonte (MG)