IMG-20161118-WA0023

Texto produzido pelo Ir. José Sotero dos Santos Neto, juniorista e estudante de Teologia no Instituto Santo Tomás de Aquino em Belo Horizonte/MG.

O Instituto Marista em sua caminhada rumo ao bicentenário, ao fazer memória de sua história, reafirma, com convicção, que o nosso alicerce é a espiritualidade, na qual perpassa todas as nossas ações, desde a interioridade, oração, até a ação educativa e nossas relações fraternas. Estamos imersos num autêntico tempo da graça, cujo foco é a dimensão mística de nossas vidas.

La Valla: ícone da relação – identidade marista. La Valla não é apenas “um lugar”, mas uma realidade teológica carregada de sentido em si mesma. O andar térreo do espaço sacramental – La Valla, nos sinaliza para a fraternidade – nele, recordamos o encontro fraterno da Primeira Comunidade Cristã, a Igreja de Rosto Mariano, Igreja horizontal de comunhão. Fazemos memória da comunidade dos primeiros Irmãos. Nesse espaço, encontra-se a mesa de La Valla (ícone da fraternidade marista). É um andar da casa que diz respeito ao “nosso jeito de ser”, o espírito fraterno.

Em torno dessa mesa se sentaram o Padre Champagnat e os primeiros Irmãos. Hoje esse ícone da fraternidade marista está enriquecido não somente com a presença de Irmãos, mas também de leigas e leigos convidados a construir uma Igreja de rosto mariano.

Esse nosso jeito de ser gerador de uma contagiante fraternidade é inspirado pela espiritualidade bíblica, fonte de vida e missão para todos nós que estamos ao redor da mesma mesa.

“Pois bem: eu, que sou o Mestre e o Senhor, lavei os seus pés; por isso vocês devem lavar os pés uns dos outros” (Jo 13, 14).

O texto joanino (13, 1-17) revela que Jesus realizou o “lava-pés” durante a ceia. Ao executar o seu gesto enquanto a ceia está acontecendo, Jesus sinaliza a existência de uma relação muito estreita entre o comer e o servir, ou seja, entre a Eucaristia e o serviço solidário. O gesto provoca uma mudança na dinâmica cultural. Até Jesus, os convidados na refeição eram servidos e saíam satisfeitos. A partir da ação de Jesus, os convidados para a refeição servem-se uns aos outros e saem do evento comensal para servir outros.

Jesus provoca os apóstolos para um “novo começo” no modo de ver as coisas: não a partir do lugar dos comensais, mas tendo como base o horizonte de quem não está sentado à mesa. É um convite para o deslocamento, a “irmos depressa” ocupar o lugar da pessoa que não participa da mesa. Quais apelos e novidades percebemos a partir desse lugar?

“Estar à mesa” é sempre sinal de fraternidade, de comunhão. Todavia se faz necessário saber levantar-se na hora certa para poder servir com amor. Para a realização do movimento do amor não é possível colocando-se longe do outro. “Coloca água numa bacia e começa a lavar os pés dos discípulos e a enxugá-los com a toalha com que estava cingido”.  Jesus assume a integralidade do serviço e providencia os preparativos, não faz trabalho pela metade. A água derramada traduz extrema delicadeza, com atenção e ternura. Amar é proximidade, ajudar, caminhar juntos, partilhar vida, sonhos… Jesus sacraliza um gesto, sinal do amor “físico”, de contato corporal e de serviço, respeito e de dignidade.

O gesto de Jesus, por si só, expressa o que Ele é. Ele é inteiramente servo. Todo o seu ser está a serviço. Ele se dá totalmente naquilo que faz, e faz o que propõe aos discípulos. Essa é a dinâmica que o Reino de Deus apresenta como novidade: partir do meio para a periferia em forma de círculo a fim de atingir a todos. O serviço solidário é exercitado primeiro entre os que participam da ceia, sendo praticado de maneira crescente, sem limite de tempo ou espaço, atingindo a todos até a plenitude.

No caminho de seguimento a Jesus, Champagnat interioriza com sabedoria as provocações do Mestre de Nazaré e as atualiza para os seus Pequenos Irmãos de Maria. Hoje, com a mesa embelezada ainda mais pela presença de Irmãos, Leigas, Leigos e tantos outros companheiros apaixonados pelo carisma marista, precisamos nos deixar cativar pelo gesto de Jesus, visto que a força que ele traz é para conduzir à vida em abundância.

Maristas de Champagnat, que o estar todos ao redor da mesma mesa, nos impulsione espontaneamente a partilharmos o dom recebido, colocando-o a serviço de todos, a começar pelos mais carentes. A fraternidade, símbolo de unidade entre nós, precisa se encarnar em nosso cotidiano para além do estar à mesa. Resgatemos a beleza dos gestos sem pressa, eles possuem uma paz e calma essenciais. Cultivemos a “lerdeza” dos gestos, o amor precisa de tempo para ser exercitado e sentido. Avante!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Limpar formulárioEnviar