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Autora:

Amanda Wanderley de Azevedo Ribeiro[1]

“O Marcelo é aluno do curso de Jornalismo e quer se especializar em esportes”. A notícia, dada pela educadora Patrícia Feitosa[2], durante o 5º Congresso Internacional Marista de Educação, em Olinda/PE, reverberou em mim por vários dias. De aparente simplicidade, por se tratar de caminhada natural para jovens que se encantam pela Comunicação como área do conhecimento, a “Boa Nova” se revestia, no entanto, pela alegria da superação. Com as limitações da falta de visão e audição, o adolescente baiano dava mais um passo para uma vida significativa e de exemplo àqueles que, como eu, conviveram com ele.

Nossas histórias se encontraram há sete anos, quando realizei oficina de rádio no Colégio Marista Patamares, em Salvador/BA. Tinha a missão de, em dois dias, preparar estudantes do Ensino Médio para a cobertura jornalística de rádio da Estação das Letras, feira do livro da unidade educacional. Para sensibilizar as demais séries a acompanhar a programação ao vivo, fomos de sala em sala conversar sobre a iniciativa com os alunos dos outros segmentos. E, em uma das visitas, Marcelo, à época no 5º ano do Ensino Fundamental, demonstrou interesse em conhecer o estúdio da “emissora”, improvisado nos achados e perdidos da escola.

E ele o fez. Além do interesse pelo projeto, perguntou sobre o meu time de futebol e fez uma entrada na grade de programação para bate-papo esportivo. Naquele instante, mesmo sem saber, o meu futuro colega de profissão dava sentido à máxima de Paulo Freire de que “Existir é, assim, um modo de vida que é próprio ao ser capaz de transformar, de produzir, de decidir, de criar, de recriar, de comunicar-se[3].” Marcelo, como defendia o educador, ia além do estar no mundo, acrescentava à vida novo sentido à existência, sem deixar que as limitações se transformassem em barreiras.

Como Freire, percebo na comunicação possibilidades transformadoras, que extrapolam as relações intra e interpessoais e descortinam horizontes para a convivência fraterna e de expressão das potencialidades que trazemos em nós. E quando o campo se encontra com o da educação, isso é ainda mais evidente. Percebi, na prática, o que os estudiosos da Educomunicação apresentavam em pesquisas pelo país, o quanto o educar pela comunicação se configurava como processo libertador. Além da experiência com Marcelo, outros pais me procuraram para dizer o quanto a vivência na rádio contribuiu para o relacionamento dos filhos com eles, favoreceu o trabalho em equipe, o espírito crítico e ajudou até no tratamento da dislexia[4] de um dos adolescentes.

Ou seja, os cinco dias de trabalho, proporcionaram, para além dos programas radiofônicos, mudanças marcantes. Uns aprendemos com os outros, em um ecossistema comunicativo, conceito defendido pelo professor Ismar Soares, da Universidade de São Paulo/USP, precursor da Educomunicação no Brasil.  Ele entende ser necessária a criação desses “espaços que cuidem da saúde e do bom fluxo das relações entre as pessoas e os grupos humanos.” Para isso, propõe o planejamento de ações de comunicação e o envolvimento atuante dos sujeitos.

Quanto a mim, passei a buscar a sensibilidade como companheira profissional, a compreender que, mais do que informações, textos, notícias, a comunicação auxilia no entendimento de mundo, na autonomia, na alteridade e no reconhecimento do aprendizado na convivência com o outro. Portanto, que as sementes da comunicação transformadora, que hoje florescem em jovens como Marcelo, façam parte do jardim da vida e a tornem cada vez mais especial.

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[1] Jornalista, analista na Assessoria de Comunicação Organizacional da Província Marista Brasil Centro-Norte.

[2] Coordenadora do Núcleo de Apoio à Educação Inclusiva do Colégio Marista Patamares, em Salvador/BA.

[3] Trecho extraído do livro “Educomunicação: reflexões e princípios”, de Angela Schaun (Mauad, 2002, p.35).

[4] De acordo com a Associação Brasileira de Dislexia (www.dislexia.org.br), trata-se de transtorno específico de aprendizagem de origem neurobiológica, caracterizada por dificuldade no reconhecimento preciso e/ou fluente da palavra, na habilidade de decodificação e em soletração. Essas dificuldades normalmente resultam de um déficit no componente fonológico da linguagem e são inesperadas em relação à idade e outras habilidades cognitivas.

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